IA avança nas empresas, mas governança e liderança ainda travam ganhos estratégicos
A inteligência artificial já ocupa posição central nas estratégias corporativas no Brasil, mas ainda enfrenta entraves para se consolidar como uma capacidade organizacional estruturada. Apesar do avanço na adoção, lacunas em governança, liderança e maturidade executiva limitam o potencial da tecnologia como diferencial competitivo.
É o que aponta o Estudo sobre Inteligência Artificial Aplicada à Estratégia, realizado pela Meta em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC). O levantamento ouviu mais de 100 CEOs e executivos de empresas brasileiras e multinacionais, distribuídas em 20 setores, para mapear como a IA vem sendo incorporada às estratégias de negócio.
Os dados mostram que mais de 80% das organizações consideram a IA relevante, mas a maioria ainda não estruturou os fundamentos necessários para escalar seu uso. Entre os principais desafios, 80% das empresas não realizam avaliações recorrentes de maturidade em IA, enquanto 74% não possuem práticas consolidadas de gestão de riscos. Além disso, 23,2% não definiram métricas formais para mensurar resultados.
O estudo também revela limitações na adoção de tecnologias mais avançadas: 66,7% das empresas ainda não utilizam técnicas de machine learning ou deep learning, indicando que grande parte das iniciativas se baseia em soluções prontas, sem desenvolvimento de inteligência proprietária.
A falta de conhecimento especializado aparece como o principal obstáculo, citada por 42,7% dos executivos. Questões como integração com sistemas legados, custos de implementação e preocupações com segurança e conformidade também estão entre as principais barreiras.
Do ponto de vista organizacional, o cenário evidencia baixa maturidade. Cerca de 43,3% das empresas investem menos de 1% do orçamento em IA, enquanto 68,3% ainda não possuem estruturas dedicadas à gestão dessas iniciativas. A presença de especialistas na alta liderança também é limitada, dificultando a integração da IA às decisões estratégicas.
Outro gargalo está no uso de dados. Embora 70% das empresas priorizem infraestrutura tecnológica e metade já utilize arquiteturas como datalakes, apenas 10% exploram esses ambientes para análises avançadas e aplicações de IA.
A capacitação também segue como desafio: para 55,8% das organizações, a inteligência artificial ainda não é prioridade nas estratégias de desenvolvimento de talentos, o que amplia o déficit de profissionais qualificados.
Na prática, a maior parte das empresas ainda utiliza IA para automação e ganhos incrementais de eficiência, sem avançar para aplicações mais transformacionais ou novos modelos de negócio.
Ainda assim, o potencial competitivo é reconhecido. Mais de 70% das empresas veem a IA como diferencial estratégico, e 58,3% já reportam ganhos de produtividade, especialmente com o uso de soluções de IA generativa.
Para Hugo Tadeu, diretor do Núcleo de Inovação e IA da FDC, há um descompasso entre expectativa e resultado. Segundo ele, embora o tema esteja aquecido, ainda faltam indicadores claros de retorno sobre investimento e maturidade digital, especialmente em empresas de médio porte.
Na avaliação de Telmo Costa, CEO da Meta, o próximo ciclo será definido pela capacidade de integração da IA ao modelo de negócio. “A diferença entre tratar IA como projeto ou como estratégia é o que vai determinar a vantagem competitiva nos próximos anos”, afirma.
O estudo aponta que o desafio atual das empresas não é mais o acesso à tecnologia, mas a capacidade de estruturar governança, alinhar lideranças e executar iniciativas em escala. A IA deixou de ser experimental — agora, o foco está em transformar potencial em resultado.
Fonte: TI Inside