A inovação precisa sair do laboratório para transformar os negócios
A inteligência artificial deixou de ocupar apenas laboratórios de inovação para assumir um papel central na estratégia das empresas brasileiras, impulsionando novos modelos de negócio, acelerando o desenvolvimento de produtos, ampliando a competitividade internacional e apoiando a transição para uma economia de baixo carbono.
Esse foi o consenso do painel que reuniu Antonio Carnielli Junior, diretor sênior de Desenvolvimento Técnico da Volkswagen do Brasil; Dimas Douglas Tomelin, Chief Strategy & Innovation Officer da Embraer; André Fatala, VP da Magalu Cloud e diretor de Tecnologia do Magazine Luiza; e Camilo Abduch Adas, diretor de Transição Energética e Relações Institucionais da Be8, com mediação de José Luis Pinho Leite Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, durante o Rio Innovation Week 2026.
Embora representem segmentos diferentes, os executivos defenderam que inovação precisa estar conectada diretamente ao negócio, gerar impacto mensurável e fortalecer a soberania tecnológica brasileira.
Se existe um consenso na corrida pela inteligência artificial, é que muitas empresas começaram pelo caminho mais fácil: automatizar atividades existentes. Para André Fatala, esse movimento resolve apenas parte do problema.
Na visão do executivo, aplicar IA sobre processos antigos significa apenas acelerar ineficiências que já existiam. “Se você apenas colocar inteligência artificial em um processo antigo, vai automatizar um processo ruim. Antes de aplicar IA, é preciso repensar o processo.”
Segundo Fatala, foi justamente esse raciocínio que levou o Magazine Luiza a redesenhar sua engenharia de software. Em vez de concentrar esforços na produção manual de código, os profissionais passaram a definir arquiteturas, padrões e regras para que a própria inteligência artificial desenvolva aplicações seguindo critérios de qualidade.
A mudança, segundo ele, reduziu o tempo de desenvolvimento, acelerou a entrega de produtos e abriu espaço para iniciativas voltadas ao crescimento do negócio, como a evolução da assistente virtual Lu, que hoje realiza vendas pelo WhatsApp utilizando IA generativa.
Mas o executivo acredita que existe um desafio ainda maior para o país. “A inovação precisa deixar de ser privilégio de poucas empresas. A gente quer tornar a inteligência artificial acessível para todo o mercado brasileiro.”
Essa visão também explica a criação da Magalu Cloud, iniciativa que busca desenvolver infraestrutura nacional para reduzir a dependência tecnológica de provedores internacionais.
Para o projeto ser funcional, ele precisa ser escalável
Se o mercado passou os últimos anos acumulando pilotos de inteligência artificial, a Embraer acredita que a próxima vantagem competitiva estará na capacidade de colocar essas iniciativas em operação.
Para Dimas Douglas Tomelin, inovação só gera valor quando deixa de ser um experimento isolado. “O desafio não é fazer prova de conceito. O desafio é escalar.”
Segundo o executivo, a fabricante organiza sua estratégia em verticais de inovação capazes de alterar o futuro da companhia, como inteligência artificial, ciência de dados e sustentabilidade. O foco está em reduzir ciclos de desenvolvimento, aumentar eficiência industrial, acelerar manutenção e ampliar a capacidade de resposta ao mercado.
Mas, na avaliação dele, esse movimento precisa ultrapassar os limites da própria empresa.
“Como levamos essa tecnologia para toda a cadeia de fornecedores? Quando toda a cadeia ganha produtividade, toda a indústria se torna mais competitiva”, comenta.
A lógica, segundo Tomelin, é simples: ganhos isolados têm impacto limitado. O verdadeiro diferencial competitivo surge quando a inovação se espalha por todo o ecossistema.
O carro virou software
Talvez nenhuma indústria represente tão bem essa transformação quanto a automotiva. Durante décadas, a evolução significava motores mais eficientes, novas plataformas e melhorias mecânicas. Hoje, o centro da inovação mudou.
“O carro está migrando para software, conectividade e eletrificação”, resumiu Antonio Carnielli Junior ao explicar por que a Volkswagen precisou revisar completamente a formação de seus engenheiros.
Na prática, isso significa que profissionais acostumados a desenvolver componentes mecânicos agora precisam dominar arquitetura de software, simulações digitais, inteligência artificial e realidade virtual.
Para ilustrar essa mudança, Carnielli utilizou uma comparação que evidencia a diferença entre o mundo físico e o digital. “Software é diferente de tudo o que aprendemos até hoje. Em um computador, quando algo dá errado, você desliga e liga novamente. Com um carro andando, isso simplesmente não existe.”
Segundo ele, essa mudança já influencia diretamente o desenvolvimento de novos veículos. O Volkswagen Tera, por exemplo, foi concebido praticamente todo em ambiente virtual antes da produção física, reduzindo o tempo de desenvolvimento e ampliando a capacidade de simulação da engenharia brasileira.
Não há mais tempo para adiar a descarbonização
Enquanto o debate girava em torno de inteligência artificial, Camilo Abduch Adas trouxe outro ponto de atenção: a velocidade da transição energética.
Na avaliação do executivo, a discussão já não deveria ser sobre tecnologias futuras, mas sobre ampliar rapidamente a adoção das soluções que já existem. “Se a inovação não chega ao mercado, o ciclo não se retroalimenta.”
A Be8 apresentou projetos ligados a combustíveis renováveis, hidrogênio de baixo carbono e transporte pesado sustentável, mostrando que parte dessas soluções já está pronta para aplicação comercial.
Ao encerrar sua participação, Camilo ressaltou sobre a velocidade com que as empresas precisam agir. Ele afirma que “Não vai mais dar tempo. A descarbonização precisa acontecer agora.”
Mais do que um alerta ambiental, a declaração sintetiza a percepção compartilhada pelos participantes: a velocidade da transformação tecnológica passou a ser maior do que a capacidade das empresas de adiar decisões.
A competitividade será medida pela capacidade de executar
Ao final do debate, ficou evidente que inteligência artificial, software e energia limpa já não são agendas independentes. Elas se tornaram parte de uma mesma estratégia empresarial, na qual inovação deixa de ser medida pelo número de projetos desenvolvidos e passa a ser avaliada pela capacidade de gerar produtividade, reduzir custos, acelerar decisões e criar novos mercados.
A vantagem competitiva não estará necessariamente com quem adotar primeiro uma tecnologia, mas com quem conseguir integrá-la ao negócio antes dos concorrentes. Esse foi o principal recado deixado por um painel que reuniu empresas de setores tão distintos e, ao mesmo tempo, tão alinhadas sobre o futuro da inovação.
Fonte: TI Inside