Da descoberta científica à liderança: os desafios das mulheres na pesquisa
Fonte: MCTI
Mulheres estiveram por trás de algumas das descobertas mais transformadoras da ciência moderna. As imagens que permitiram revelar a estrutura do DNA, por Rosalind Franklin (1952), a radioatividade, por Marie Curie (1898), e até o primeiro algoritmo para uma máquina, por Ada Lovelace (1843), são exemplos de avanços que moldam a ciência e a tecnologia até hoje. No Brasil, políticas públicas têm buscado ampliar a presença feminina na ciência ao enfrentar desigualdades históricas na carreira científica. Persistentes, meninas e mulheres seguem na linha de frente das principais descobertas e da construção de um sistema científico mais diverso e inclusivo.
Em 41 anos de funcionamento, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) conta com apenas uma mulher no portfólio de ministros. Ao assumir o comando da pasta em 2023, a engenheira eletricista Luciana Santos destacou o significado simbólico do momento: “Vou usar essa motivação e experiência na gestão pública para fazer valer o fato histórico de ser a primeira mulher ministra da ciência, tecnologia e inovação no Brasil”.
Para a ministra, ampliar a presença feminina na ciência é também uma estratégia de desenvolvimento, além de uma reparação histórica. Em seus posicionamentos ela deixa claro que, apesar de ser a primeira, não pretender ser a última a ocupar esse espaço. “Ampliar a presença das mulheres na ciência é uma questão de justiça, e também de desenvolvimento. A diversidade fortalece a produção científica e amplia as soluções para os desafios do País”, afirma.
Parte do grupo de cientistas que resiste e luta pelo espaço feminino na ciência, a secretária de Políticas e Programas Estratégicos (Seppe) no MCTI, Andrea Latgé, afirma que as dificuldades impostas às mulheres na carreira científica são inúmeras. Entre elas está a definição do que é lugar para o feminino, normalmente associado a espaços de cuidado, manutenção e ajuda. Física, pesquisadora e professora, Andrea ocupou desde o início da carreira espaços predominantemente masculinos, na área conhecida como STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
“Na minha área você não encontra mais do que 25% de mulheres, mesmo com o número de estudantes aumentando, lá no topo você não vai ter mais que isso. E isso tem a ver com o viés em que somos criadas, acreditando que nós não temos esse espaço nas áreas de STEM”, conclui. “Quando estou na docência, percebo que o número de meninas está aumentando. Quando vejo programas de governo que incentivam mulheres nas ciências, ainda mais nas exatas, eu sinto mais esperança”, complementa. Para ela, é preciso mais impulso e mais recurso na base da formação dessas meninas.
A cientista começou na carreira por meio da graduação, em 1980. Naquele ano, mulheres representavam menos de 10% dos físicos em muitos contextos acadêmicos, segundo levantamentos históricos citados em estudos publicados na Revista Brasileira de Ensino de Física. A percepção de crescimento da pesquisadora acompanha os dados atuais. Estudos recentes indicam que cerca de 24% do corpo docente de física no Brasil é feminino, embora a proporção varie por subárea.
Para a secretária, é necessário encarar de frente, ocupar espaços e mostrar que mulheres não têm habilidades diferentes das dos homens. Na realidade, a verdade é outra: as capacidades são as mesmas. “A gente tem que mudar e trazer esses homens a encarar as mulheres de igual para igual. Nosso público não pode ser mulher para mulher, entendeu? Na ciência e em todos os outros ambientes, na Câmara, no Senado, a gente tem que estar lado a lado, com esses homens nos escutando. É de igual para igual”, afirma.
O espaço do cuidado
Estudos sobre gênero e ciência mostram que a participação feminina diminui conforme a carreira acadêmica avança, fenômeno conhecido como efeito tesoura. No Brasil, as mulheres representam cerca de 57% dos estudantes de graduação e mais de 50% da pós-graduação, segundo dados do Ministério da Educação e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). No entanto, a presença delas cai entre os pesquisadores e diminui ainda mais nas posições de liderança científica: nas bolsas de produtividade em pesquisa (PQ) — modalidade concedida a pesquisadores com trajetória consolidada e relevante produção científica — do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Elas são consideradas um indicador de destaque na carreira acadêmica e correspondem a cerca de 35% dos bolsistas.
Para a pesquisadora e professora do departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB) Verônica Slobodian, várias interseccionalidades como raça, classe social e etnia explicam em diferentes níveis o motivo de o número mulheres diminuir conforme a carreira avança. No entanto, uma máxima é sempre observada: o espaço do cuidado. “Mulheres, mesmo dentro das universidades, estão mais vinculadas a posições administrativas de cuidado. Então, geralmente vão virar coordenadoras de curso, orientadoras de muitos alunos, que são coisas que têm menor reconhecimento quando essas mulheres vão avançando ao longo das suas carreiras. A gente precisa que esses trabalhos que são feitos pelas mulheres também sejam reconhecidos, e que espaços de liderança sejam incentivados”, afirma.
Para Liliam Cristina Barros Cohen, bolsista de PQ do CNPq e professora do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará (UFPA), a desigualdade também aparece na divisão do trabalho doméstico e de cuidado. “Eu creio que gasto 70% do meu tempo livre com cuidados. Isso interfere no desenvolvimento pleno das mulheres na carreira científica”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, muitas alunas têm potencial para seguir na academia, mas acabam enfrentando sobrecarga e falta de apoio institucional. “A permanência das mulheres na universidade também depende de políticas que considerem a economia do cuidado”, finaliza.
Uma luta constante
Além de financiar projetos e formação científica, o CNPq, agência pública federal vinculada ao MCTI, tem adotado medidas para ampliar a participação feminina na ciência. Uma delas é a possibilidade de prorrogação das bolsas de pesquisa em casos de maternidade, adoção ou guarda judicial, garantindo que a pesquisadora possa se afastar temporariamente sem perder o financiamento do projeto. A estrutura faz parte do esforço em manter mulheres nas universidades, lidando com as barreiras sociais que as atravessam durante a jornada. A legislação federal permite a extensão da bolsa por até seis meses durante o período de licença-maternidade.
Outra iniciativa busca reduzir os impactos da maternidade na avaliação da carreira científica. O CNPq passou a considerar uma ampliação de até dois anos no período analisado nos currículos de pesquisadoras que tiveram filhos, especialmente em editais de bolsas de produtividade em pesquisa. A medida busca evitar que cientistas sejam penalizadas por períodos de afastamento ligados à maternidade.
Especialistas apontam que políticas desse tipo ajudam a reduzir desigualdades históricas na carreira acadêmica, onde a presença feminina ainda diminui nas posições mais altas da pesquisa. Para Latgé, esse cenário reflete mudanças que estão em andamento. “Essas transformações levam tempo para aparecer nas posições de liderança. É uma pirâmide que leva tempo, assim como a carreira acadêmica”, afirma.
A importância da diversidade
Para as pesquisadoras ouvidas na reportagem, ampliar a presença feminina na ciência não é apenas uma questão de equidade. Trata-se também de ampliar a capacidade da própria ciência de compreender problemas complexos, formular perguntas mais abrangentes e produzir respostas mais consistentes para a sociedade.
Para Verônica, a diversidade muda a qualidade do conhecimento produzido porque diferentes trajetórias sociais produzem diferentes formas de olhar para um mesmo problema. “Se a ciência significa a gente compreender a realidade de várias formas diferentes, a gente precisa ter pessoas que têm olhares diferentes para a realidade. A posição social importa para o fazer científico”, afirma. Segundo ela, quando a produção científica parte sempre das mesmas vivências, a tendência é que o resultado seja mais limitado. “A diversidade amplia o nosso repertório em termos de compreensão da realidade e permite fazer uma ciência muito mais explicativa”, diz.
A professora Liliam segue a mesma linha. Para ela, a diversidade fortalece a ciência porque reúne experiências, repertórios e modos de ver o mundo que não são iguais. “Quando você pensa em diversidade, você pensa em pessoas com diferentes backgrounds. Cada um tem uma visão, cada um tem um olhar diferente para o mesmo problema. Então, quando você junta isso, é mais fácil pensar no todo”, afirma. Na avaliação da pesquisadora, a ciência perde diretamente quando mulheres deixam a carreira científica. “A ciência perde qualidade quando as mulheres deixam a carreira”, resume.