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Trabalho remoto desafia modelo tradicional e coloca produtividade, confiança e cultura no centro

O trabalho remoto deixou de ser uma resposta emergencial à pandemia para se tornar uma escolha estratégica de empresas e profissionais. Mais de seis anos depois da mudança provocada pela Covid-19, porém, o mercado ainda tenta encontrar um equilíbrio entre flexibilidade, produtividade e a necessidade de manter pessoas conectadas.

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Essa foi a principal discussão do painel “Contra a ordem mundial: aumentando a produtividade no trabalho remoto”, realizado durante o Rio Innovation Week 2026, com participação de Miguel Perdigão, GM de Financial Products da RecargaPay; Christian Brech, Country Manager da BUK Brasil; e André Barreto Chiarini, presidente da Spare Partners Soluções de MRO, sob mediação de Lucas Agrela, repórter do Estadão.

A conversa mostrou que a pergunta mais relevante já não é se o trabalho remoto funciona. O desafio agora é entender onde a presença física gera valor e onde ela apenas reproduz um modelo tradicional de gestão.

Na RecargaPay, o trabalho corporativo é 100% remoto. Para Miguel Perdigão, uma das principais vantagens está justamente na possibilidade de ampliar o acesso a profissionais independentemente de sua localização.

A empresa reúne cerca de 500 pessoas distribuídas por diferentes cidades e países, e o executivo afirma que o modelo permite aumentar a chamada densidade de talentos, incorporando perspectivas diferentes à organização.

Mais do que uma questão de produtividade, a flexibilidade também passou a pesar na decisão dos profissionais sobre onde trabalhar. Christian Brech, da BUK Brasil, trouxe exemplos de executivos que optaram por permanecer no trabalho remoto mesmo diante de propostas presenciais acompanhadas de aumentos salariais.

Os exemplos mostram como o trabalho remoto deixou de ser apenas uma política de benefícios. Ele passou a influenciar diretamente a capacidade das empresas de atrair e reter profissionais.

Produtividade não se mede pelo tempo de tela

Se o profissional não está no escritório, como saber se está trabalhando? A pergunta, embora pareça simples, expõe uma mudança mais profunda na gestão.

No debate, Perdigão rejeitou a lógica de monitorar funcionários por ferramentas que acompanham mouse, teclado ou tempo de conexão. Para ele, o trabalho remoto exige confiança e uma gestão orientada às entregas.

Essa mudança também ajuda a explicar por que o modelo pode funcionar para algumas empresas e não para outras. O remoto exige profissionais capazes de trabalhar com autonomia e organizações preparadas para estabelecer objetivos claros.

O presencial ainda tem uma função

A defesa do trabalho remoto, entretanto, não significou uma rejeição ao escritório.

André Barreto Chiarini trouxe ao debate uma perspectiva diferente. Em operações industriais, logísticas e de manutenção, a presença física muitas vezes faz parte da própria atividade e não pode ser substituída por uma conexão digital.

Mas mesmo em empresas nas quais boa parte das funções pode ser realizada remotamente, os executivos reconheceram que existem situações em que estar fisicamente junto produz resultados diferentes.

Reuniões estratégicas, eventos, relacionamento comercial e, principalmente, momentos de aprendizado e troca podem ganhar outra dimensão quando acontecem presencialmente. O problema está em transformar essa constatação em uma obrigação generalizada.

Se a presença é necessária apenas em determinados momentos, exigir cinco dias de escritório pode significar usar uma solução muito mais ampla do que o problema que se pretende resolver.

Cultura não nasce do escritório

Outro ponto central do debate foi a construção de cultura em ambientes distribuídos.

Para Perdigão, uma organização remota precisa criar seus próprios rituais de conexão. Eventos, encontros presenciais pontuais e mecanismos digitais podem cumprir parte do papel que antes era desempenhado naturalmente pelo escritório.

Brech também destacou que a cultura está menos relacionada ao espaço físico do que à forma como os valores da companhia aparecem no comportamento das pessoas. A questão, portanto, não é simplesmente colocar funcionários juntos, mas garantir que eles entendam como a empresa espera que as decisões sejam tomadas e como as relações devem funcionar.

É uma diferença importante. Ter pessoas no mesmo lugar não garante cultura. Assim como trabalhar de lugares diferentes não impede que ela exista.

Para os mais jovens, a presença pode acelerar o aprendizado. O principal ponto de atenção em relação ao trabalho remoto apareceu quando o painel discutiu profissionais em início de carreira.

Para quem está começando, a convivência com colegas mais experientes pode facilitar o aprendizado de comportamentos, processos e habilidades que nem sempre estão documentados. A presença permite observar como uma reunião acontece, como uma decisão é tomada ou como uma pessoa mais experiente reage diante de um problema.

Essa preocupação ganha ainda mais relevância em um momento no qual a inteligência artificial também começa a transformar funções e exigir novas competências. O desenvolvimento profissional passa a depender não apenas de cursos e ferramentas, mas da capacidade de aprender continuamente com outras pessoas.

Na RecargaPay, a adaptação ao modelo remoto começa ainda na contratação. Segundo Perdigão, o processo de seleção precisa avaliar se o profissional tem autonomia e se consegue se adaptar à dinâmica da empresa.

O futuro do trabalho será mais intencional

O painel terminou sem uma defesa do remoto como modelo absoluto ou do escritório como solução para todos os problemas. E talvez essa seja justamente a principal conclusão.

A experiência das empresas mostra que não existe uma relação automática entre presença e produtividade. Da mesma forma, o trabalho remoto não elimina a importância da convivência, do aprendizado e das conexões que surgem quando as pessoas compartilham o mesmo espaço.

No presencial, os participantes destacaram a possibilidade de encontrar pessoas, ideias e soluções que dificilmente apareceriam em uma busca digital justamente porque, muitas vezes, não sabemos nem que aquela informação existe para procurá-la.

A discussão, portanto, começa a sair da pergunta sobre onde trabalhar e passa para uma questão mais estratégica: quando vale a pena estar junto?

Para empresas que buscam produtividade, a resposta pode estar menos em escolher entre remoto e presencial e mais em construir uma combinação coerente com a natureza do negócio, o perfil das equipes e o tipo de trabalho que precisa ser realizado.

Fonte: TI Inside

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