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Por que gastamos tanta água quando usamos inteligência artificial?

Pesquisadores e educadores de diferentes áreas apontam caminhos para a sociedade reduzir danos causados por data centers

[8-10-2026] EP #161 Layout – Ciência ao Pé do Ouvido -03 (1)

Você já viu algum comentário ou meme do tipo: “gastei uma piscina para fazer essa imagem na IA”? Além do que nós geramos usando a inteligência artificial (IA), também uma fotografia publicada nas redes sociais, uma mensagem enviada pelo celular ou um vídeo assistido em uma plataforma de streaming têm algo em comum: todos dependem de estruturas físicas para armazenar e processar informações.

Apesar de serem frequentemente associados à computação em nuvem (inclusive, a gente diz: “salvei minhas coisas na nuvem”), esses dados ficam armazenados em grandes instalações físicas com milhares de computadores e equipamentos de processamento. Essas estruturas são os data centers, expressão em inglês que poderia ser traduzida para o português como centro de dados.

O armazenamento e o processamento de tantos dados geram calor, especialmente em equipamentos de alto desempenho. Para evitar o superaquecimento e garantir o funcionamento contínuo dos computadores, os data centers precisam de sistemas de refrigeração. Dependendo da tecnologia utilizada, esses sistemas podem demandar volumes expressivos de água. Segundo o Instituto de Estudos Ambientais e Energéticos (EESI), data centers de grande porte chegam a consumir quase 20 milhões de litros de água por dia.

Também a eletricidade que abastece os servidores pode precisar de água em sua geração, assim como a fabricação dos componentes eletrônicos. A Agência Internacional de Energia estima que os data centers consumiram globalmente cerca de 560 bilhões de litros de água em 2023, considerando essas diferentes etapas. Desse total, aproximadamente dois terços estão associados à geração de energia. No cenário-base da agência, o volume pode chegar a 1,2 trilhão de litros anuais até 2030.

 

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Charge: Isadora Pimenta

Mas nem todos os data centers consomem a mesma quantidade de água. A demanda depende de fatores como o tamanho da instalação, o tipo de processamento realizado, as características climáticas da região e a tecnologia empregada na refrigeração.

Uma das tecnologias mais utilizadas é o resfriamento evaporativo, afirma o consultor de sustentabilidade Lourenço Faria, economista pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pesquisador convidado da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Nesse sistema, a água participa do processo de dissipação do calor produzido pelos equipamentos. Parte dela evapora e transfere o calor para o ambiente externo. Diferentemente de um circuito fechado, no qual a água circula e pode ser reutilizada continuamente, esse modelo exige reposição da água perdida durante a evaporação, daí o consumo elevado.

A popularização da inteligência artificial intensifica todas essas demandas. O treinamento e a execução de modelos de IA exigem grande capacidade computacional e equipamentos que operam em altas temperaturas. Quanto maior a geração de calor, maior o desafio de manter a estrutura refrigerada.

“Não é que todo data center gasta muita água”, diz Faria. O economista explica que existem diferentes tecnologias de refrigeração, mas algumas alternativas apresentam custos mais elevados de instalação e manutenção. Isso ajuda a explicar a adoção de sistemas que utilizam água em larga escala.

Existem alternativas ao resfriamento evaporativo. Algumas tecnologias atuam diretamente na fonte de calor, diminuindo a temperatura dos componentes eletrônicos, como os chips, sem precisar refrigerar todo o ambiente. Outras utilizam líquidos especiais para absorver o calor dos equipamentos. Há também sistemas que aproveitam a temperatura externa para auxiliar no resfriamento.

Essas soluções, entretanto, não estão livres de impactos ambientais. No caso dos sistemas que utilizam líquidos para refrigeração, por exemplo, eventuais vazamentos podem representar riscos de contaminação do solo. Além disso, tecnologias mais complexas podem exigir investimentos maiores.

Para Faria, um dos desafios é desenvolver soluções adequadas às condições climáticas brasileiras, pois tecnologias concebidas para regiões de clima frio ou temperado podem apresentar desempenho diferente em países de clima tropical. “Precisamos fazer pesquisa de ponta sobre quais soluções tecnológicas podemos utilizar para o nosso contexto aqui, para o nosso país”, defende o economista.

 

Ser Rio, Jeamylle Nilin, Lourenço Faria e Diélen Borges, durante gravação do podcast Ciência ao Pé do Ouvido
Ser Rio, Jeamylle Nilin, Lourenço Faria e Diélen Borges, durante gravação do podcast Ciência ao Pé do Ouvido (Foto: Iasmim Teixeira)

A professora Jeamylle Nilin, do Instituto de Biologia (Inbio/UFU), coordena o projeto Guardiãs das Águas. Ela também chama a atenção para a necessidade de avaliar cada empreendimento individualmente. Não basta saber quanto um data center consome de água, é preciso compreender de onde ela será captada, quais são as condições ambientais da região e quais outros usos dependem daquele mesmo sistema hídrico.

A disponibilidade de água não é igual em todos os territórios, explica Nilin. Uma região que apresenta relativa segurança hídrica em determinado momento pode enfrentar limitações em períodos de estiagem ou diante de mudanças nas condições climáticas. “Precisamos entender que a água não é um recurso que existe para o nosso uso. Ela existe para o planeta existir”, afirma.

A pesquisadora destaca que a água atende a diferentes necessidades, incluindo abastecimento humano, agricultura, indústria e manutenção dos ecossistemas aquáticos. Por isso, a instalação de grandes empreendimentos precisa considerar os usos múltiplos da água e as características de cada bacia hidrográfica. A avaliação não pode se limitar à disponibilidade de abastecimento. É necessário compreender os possíveis impactos sobre os ecossistemas e as comunidades que dependem da mesma água.

O educomunicador ambiental e arteiro Ser Rio, da comunidade Somos Rio, de Uberlândia (MG), chama a atenção para as consequências que podem atingir populações rurais e comunidades próximas às instalações de data centers. Em territórios onde o abastecimento já apresenta dificuldades, a chegada de um empreendimento com elevada demanda hídrica pode intensificar disputas pelo uso da água. “Quem está na base está pagando o preço, mas quem está lá em cima, naquela pontinha pequenininha do iceberg, nem mora nesse país.”

O educomunicador também defende que as populações diretamente afetadas participem das discussões desde o planejamento desses empreendimentos, com acesso às informações sobre os impactos ambientais e sociais previstos. “A gente precisa trazer essa discussão para que as pessoas possam valorizar essa tecnologia também. Se é para vir, então qual tecnologia vai chegar? A gente vai ter inclusão digital nesses territórios?”

Embora o consumo de água tenha ganhado visibilidade, inclusive com a popularização dos memes sobre inteligência artificial, a instalação de data centers envolve outros impactos. O funcionamento ininterrupto dos equipamentos exige grandes quantidades de energia elétrica, como explicamos, e as obras de construção e a operação das instalações podem produzir resíduos, ruídos e alterações nas dinâmicas dos territórios. Nós falamos sobre esses impactos na reportagem Cientistas alertam: data centers podem causar crise de água e energia, no portal Comunica UFU, em setembro de 2025.

 

Precisamos de data centers. E agora?

O Brasil tem uma legislação recente sobre data centers. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) foi instituído pela Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026, com o objetivo de estimular a instalação e a expansão de centros de processamento de dados no Brasil por meio de incentivos fiscais, como a suspensão de tributos na aquisição de equipamentos de tecnologia da informação e comunicação.

Em contrapartida, as empresas que aderirem ao regime deverão cumprir exigências ambientais e de desenvolvimento nacional. A lei também determina que pelo menos 10% da capacidade efetiva de processamento, armazenamento e tratamento de dados seja disponibilizada ao mercado interno e que as empresas invistam em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país. As exigências se aplicam às empresas habilitadas ao regime, não automaticamente a todos os data centers instalados no Brasil.

 

Data centers são grandes instalações físicas com milhares de computadores e equipamentos de processamento
Data centers são grandes instalações físicas com milhares de computadores e equipamentos de processamento (Imagem: Freepik/TheDigitalArtist)

Mas a regulamentação do setor precisa estabelecer critérios ambientais que não se restrinjam às empresas que recebem incentivos governamentais, afirma o economista Faria. Ele defende exigências relacionadas ao consumo de água e energia, além de regras que considerem as particularidades de cada município e estado.

A professora Nilin acrescenta que a discussão precisa envolver a sociedade e não ficar restrita a decisões empresariais ou governamentais. Para isso, considera fundamental investir em educação ambiental e divulgação científica, permitindo que a população compreenda os processos envolvidos e participe de maneira informada. “A gente precisa explicar para as pessoas: você trocaria a sua caixa d’água cheia por uma novelinha de frutas, por criar um meme, por criar uma foto para uma trend do momento?”

A expansão dos data centers e da inteligência artificial apresenta desafios que exigem a aproximação entre diferentes áreas do conhecimento, concordam os entrevistados. Pesquisas sobre eficiência energética, tecnologias de refrigeração, disponibilidade hídrica e impactos ambientais podem contribuir para identificar alternativas mais adequadas às condições brasileiras.

Os três ressaltam que a universidade pública tem papel importante tanto na produção de conhecimento quanto no diálogo com as comunidades. Ser Rio enfatiza a necessidade de aproximar a pesquisa científica dos territórios onde os empreendimentos são planejados, considerando também os conhecimentos e as experiências das populações locais.

A discussão, portanto, não se resume a ser contra ou a favor dos data centers. Essas estruturas já fazem parte da sociedade digital e tendem a ganhar importância com o avanço da inteligência artificial. O desafio é estabelecer condições para que sua expansão respeite os limites ambientais, considere a disponibilidade de água e preserve a qualidade de vida das populações, com transparência nas decisões.

 

Quer entender melhor os impactos dos data centers sobre a água, a energia e os territórios? Ouça o episódio “Data center: o preço e o endereço da nuvem”, com a entrevista completa com Ser Rio, Jeamylle Nilin e Lourenço Faria, do podcast Ciência ao Pé do Ouvido, disponível no Spotify e nas plataformas digitais.

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

FONTE: COMUNICA UFU

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