Nova série do “O Som da Ciência” estreia com arqueólogo indígena que une tecnologia e saberes tradicionais para revelar a história da Amazônia
A diversidade na ciência é um dos assuntos centrais da 78ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 26 de julho a 1º de agosto, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). Inspirado pelo tema desta edição — “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão” —, o podcast O Som da Ciência inicia uma série especial de quatro episódios dedicada a experiências que mostram como a produção científica brasileira se fortalece quando incorpora diferentes origens, territórios e formas de conhecimento.
O primeiro episódio apresenta o arqueólogo Carlos Augusto da Silva, mais conhecido como Tijolo. Servidor aposentado, ele segue atuando como professor voluntário da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e integra o projeto Amazônia Revelada A iniciativa utiliza sensores por luz para localizar antigos sítios arqueológicos sob a floresta, em parceria com comunidades indígenas.
A entrevista foi concedida à jornalista Maria Guimarães, editora assistente do Jornal da Ciência – cuja edição especial para a Reunião Anual também trará reportagens sobre o tema da diversidade na ciência (baixe a publicação gratuitamente neste link).
De origem indígena Munduruku e Apurinã, Tijolo construiu uma trajetória pouco comum. Ingressou na UFAM aos 20 anos trabalhando nos serviços gerais. Anos depois, decidiu cursar Ciências Sociais, tornou-se arqueólogo, concluiu mestrado e doutorado e hoje orienta novos pesquisadores, incluindo estudantes indígenas.
Ao longo da conversa, o pesquisador explica que tecnologias avançadas, como o LiDAR, representam um importante avanço para a arqueologia amazônica, mas ressalta que nenhuma inovação substitui o conhecimento acumulado pelas comunidades que vivem na floresta.
“O projeto não autoriza voar numa área que não tenha a licença prévia, de quem está lá embaixo, das pessoas. Isso é um dado importante: reconhecer que nesses locais também tem conhecimento, que esses povos também são cientistas. Eles não têm GPS, bússola, internet, mas têm uma segurança muito importante”, afirma Tijolo durante a entrevista.
O episódio também aborda como os estudos arqueológicos vêm modificando a compreensão científica sobre a própria floresta amazônica. Evidências indicam que muitos ambientes considerados naturais foram profundamente manejados ao longo de uma presença estimada em 12 mil anos pelos povos originários, responsáveis pela formação de castanhais e sistemas de manejo que ainda hoje sustentam a biodiversidade da região.
Além de discutir patrimônio arqueológico, preservação ambiental e mudanças climáticas, o programa destaca a importância da presença crescente de indígenas nas universidades e na pesquisa científica brasileira, resultado de políticas públicas que ampliaram o acesso ao ensino superior e à pós-graduação.
Fonte: Jornal da Ciência