Investimento em IA dispara, mas só 3% das empresas se sentem totalmente seguras
Foto: Oitorama/Divulgação
Pesquisa realizada pela SAP e Oxford Economics com o setor privado apontou que 26% das tarefas já contam com suporte de IA
São Paulo (SP) — Já presente no dia a dia do brasileiro, a inteligência artificial também vem transformando as rotinas das empresas no país. Um levantamento inédito realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics mostrou que 26% das tarefas corporativas já contam com algum suporte de IA (eram 23% no ano passado). No entanto, a pesquisa também aponta uma questão estrutural: apenas 3% dos executivos se consideram totalmente preparados no uso da tecnologia em suas rotinas.
A corrida pela utilização da IA revela que a aplicação dessa inovação nas empresas tem chegado antes de uma maturidade técnica e uma maior compreensão de temas como segurança, governança e manejo de dados.
A pesquisa The Value Of AI ouviu 2.600 líderes de negócios em 13 países, incluindo 200 executivos no Brasil e foi lançada durante a SAP NOW AI Tour, em São Paulo, entre 9 e 10/9. O encontro promovido pela multinacional de tecnologia SAP reuniu executivos, empresários e especialistas, com público estimado de 4 mil pessoas.
O apetite das companhias brasileiras pela inteligência artificial reflete-se diretamente no orçamento. O investimento médio anual em IA no Brasil saltou de US$ 14,2 milhões para US$ 20,8 milhões por empresa, com projeção de crescer mais 46% nos próximos dois anos. “O uso de IA hoje não é mais sobre usar a tecnologia, mas sobre gerar valor”, disse o CEO da SAP Brasil, Rui Botelho. “Portanto, escalar essa IA, conseguir realmente levá-la para toda a organização e a operação da empresa, exige muita confiança”.
Para Botelho, o mercado vive uma fase crucial em que a tecnologia precisa sair de iniciativas isoladas para ganhar escala. “Os dados mostram que as empresas brasileiras avançaram da fase de testes e estão começando a escalar aplicações de IA com sucesso, de forma conectada ao contexto do negócio”, pontuou o presidente.
Os resultados econômicos no último mostram que o sentimento das empresas com a tecnologia está positivo, com tendência de crescimento. O ROI médio (retorno sobre investimento) subiu de 16% para 19% em um ano, chegando a US$ 5,5 milhões. Até 2028 deve avançar para 38%, com retorno de US$ 13,6 milhões.
No contexto brasileiro, a a maior parte das empresas enxergam potencial moderado a alto no uso de IA em suas organizações (77%), e 55% já possuem ao menos algum projeto piloto em funcionamento. No entanto, 65% não estão convencidas de que suas implementações entregam todo o potencial da tecnologia. E apenas 3% se dizem totalmente preparadas para o uso dos agentes de inteligência artificial.
Hoje, 26% das tarefas nas empresas brasileiras já utilizam alguma aplicação de IA, com tendência de chegar a 44% em dois anos. Mas a maior parte dos processos não dialogam entre si. A adoção de IA só é feita de forma estratégica em 18% dos casos.
O grande gargalo para essa consolidação continua sendo a qualidade das informações armazenadas nas próprias organizações. A pesquisa aponta que 75% dos líderes entrevistados apontam problemas na disponibilidade e qualidade dos dados como o principal obstáculo para extrair retorno financeiro da IA.
O reflexo direto dessa desorganização é o retrabalho: 80% das empresas lidam com respostas de baixa qualidade ou “alucinações” dos sistemas com alguma frequência. Botelho reforça que os desafios centrais do mercado passam obrigatoriamente pela gestão interna. “Dados e governança ainda é, talvez, o maior desafio para a adoção da tecnologia de uma maneira sustentável e escalável”, diz Botelho.
O perigo silencioso da “Shadow AI”
O CEO da SAP Brasil destacou o fenômeno do “Shadow AI” (ou “IA fantasma”), que é o uso não autorizado de ferramentas de IA generativa (como ChatGPT ou Gemini) por funcionários em suas rotinas de trabalho, sem o conhecimento ou a validação formal das políticas de segurança da empresa. A pesquisa revela que 82% das organizações brasileiras registram a prática com alguma frequência, criando uma porta de entrada invisível para ameaças cibernéticas.
As consequências desse uso informal já trazem impactos diretos às rotinas das empresas. Metade das companhias no Brasil relata que o uso de ferramentas não aprovadas gerou resultados inconsistentes ou incorretos nas tarefas diárias. Mais grave ainda, 43% dos executivos afirmam ter enfrentado vazamento de dados confidenciais ou exposição de propriedade intelectual devido à “Shadow AI”, enquanto 32% apontam vulnerabilidades críticas de segurança cibernética diretamente atreladas à prática.
O SAP NOW deste ano também apresentou o conceito da “empresa autônoma” (Autonomous Enterprise), em que cada corporação faz uso de dados públicos e privados para autogerenciar a operação, com a IA gerenciando e executando tarefas ao longo de todo o processo. “O software está mudando, mas segue essencial. A IA não vai substituir o software, mas viver dentro dele, integrada aos processos que fazem a empresa funcionar”, disse o CEO.
“Nós estamos muito otimistas. O Brasil é um país avançado, aberto à inovação e à experimentação”, concluiu Rui Botelho.
*O jornalista viajou a convite da SAP Brasil.
FONTE: Correio Braziliense