Fórum Brasileiro de Deep Techs encerra ciclo regional em Salvador e articula estratégias para ciência e mercado
A capital baiana sediou o encerramento da etapa regional do Fórum Brasileiro de Deep Techs 2026, promovido pela Wylinka em parceria com o SENAI CIMATEC e a Caos Focado. O evento reuniu representantes da indústria, da academia, do poder público e do setor financeiro para debater modelos de transição de descobertas científicas para o mercado produtivo. A programação encerrou uma sequência de conferências que passou por Belo Horizonte, Santarém, Porto Alegre e Goiânia, consolidando contribuições regionais antes da formulação de um documento orientador em âmbito federal.
De acordo com a organização do fórum, o objetivo central foi mapear instrumentos institucionais e financeiros capazes de reter talentos e transformar a produção acadêmica em soluções de alto impacto econômico. O encontro focou na descentralização da inovação de base científica, apontando mecanismos para aproximar pesquisadores de demandas reais da cadeia industrial e de fundos de investimento com foco em longo prazo.
Inteligência artificial direcionada a desafios territoriais concretos
Na conferência de abertura conduzida pela diretora executiva da Wylinka, Ana Calçado, a executiva e consultora de tecnologia Rosi Teixeira defendeu que a aplicação da inteligência artificial deve priorizar a resolução de problemas econômicos e sociais específicos de cada região, superando a mera adesão a tendências tecnológicas globais. Conforme exposto pela especialista, o valor econômico da tecnologia reside na definição de propósitos operacionais mensuráveis antes da seleção de ferramentas computacionais.
A palestrante argumentou que Salvador e o interior da Bahia apresentam um ecossistema com capacidade para desenvolver soluções contextualizadas, desde que haja articulação orgânica entre centros universitários e o parque industrial. Para a palestrante, a retenção de cientistas e desenvolvedores nos seus locais de origem depende da criação de infraestrutura regulatória e financeira que torne viável o empreendedorismo intensivo em conhecimento dentro dos próprios territórios.
As diretrizes apresentadas na palestra inicial enfatizaram que a consolidação de polos de inovação exige cooperação ativa em três frentes complementares:
- Alinhamento de demanda: mapeamento prévio de gargalos operacionais do setor produtivo regional antes do investimento em arquiteturas computacionais complexas.
- Capacitação territorial: estruturação de currículos técnicos e científicos voltados aos problemas industriais e agroecológicos locais.
- Integração de governança: conexão permanente entre formuladores de políticas públicas, institutos de ciência e tecnologia (ICTs) e operadoras de capital.
Dinâmicas de transferência de tecnologia entre academia e indústria
O primeiro painel temático, mediado pelo professor Angelo Loula, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), analisou trajetórias de transição tecnológica em empresas nascentes de base científica. O debate destacou como diferentes modelos de negócios viabilizam a sustentabilidade financeira durante as fases de pesquisa e validação industrial.
A fundadora da Resiburn, Bruna Hryniewicz, detalhou a rota adotada pela empresa na valorização de resíduos industriais. Segundo a executiva, a empresa financiou o desenvolvimento de suas patentes principais prestando serviços de engenharia consultiva e diagnósticos analíticos, garantindo fluxo de caixa operacional enquanto as tecnologias de produto cumpriam os ciclos regulatórios e de prototipagem em escala-piloto.
No segmento de novos materiais, o fundador da TRL-9, Rodrigo Polkowski, apresentou o desenvolvimento de aplicações avançadas a partir da nanocelulose extraída do sisal. A iniciativa estruturou componentes de engenharia que atendem desde manufatura aditiva com filamentos para impressão 3D até demandas dos setores de defesa, mobilidade elétrica e armazenamento de energia. Paralelamente, Felipe Lordelo, fundador da Z Future, demonstrou o direcionamento mercadológico de uma nanomembrana originalmente concebida em laboratório para o segmento médico hospitalar de enxertos de pele cutânea, após a identificação de lacunas de suprimento na rede de saúde.
| Empresa | Base Científica | Segmento de Destino | Estratégia de Transição |
|---|---|---|---|
| Resiburn | Química e valorização de resíduos | Indústria de transformação | Prestação de consultoria e engenharia paralela ao P&D |
| TRL-9 | Nanocelulose de sisal | Defesa, mobilidade e impressão 3D | Integração entre parque industrial fabril e bancada científica |
| Z Future | Nanomembranas biomédicas | Enxertos cirúrgicos e saúde | Adaptação de tese laboratorial a gargalos hospitalares |
Estruturas de capital de risco e alocação de recursos no Nordeste
No painel voltado ao financiamento corporativo, mediado pelo gerente de relacionamento da Wylinka, Paulo Mendonça, executivos do setor debateram a incompatibilidade temporal entre os ciclos convencionais de venture capital e o período de maturação exigido por empresas de deep tech. Participaram do debate Diogo Dutra (Caos Focado), Gabriel Salgado (Banco do Nordeste) e Marcelo Carvalho (SENAI CIMATEC).
O representante do Banco do Nordeste destacou a operação do Fundo de Capital Semente do Nordeste, desenhado com montante de R$ 150 milhões em colaboração com a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). A linha disponibiliza aportes estruturados especificamente para absorver o risco tecnológico de startups nascentes durante a travessia dos chamados níveis de maturidade tecnológica intermediários (TRL 4 a 7).
Os analistas financeiros presentes frisaram que a avaliação de negócios de alta tecnologia requer acompanhamento longitudinal da tese, priorizando evidências de avanço técnico em vez de indicadores de faturamento imediato. Os investidores avaliaram as seguintes métricas como prioritárias para concessão de capital semente:
- Validação em ambiente operacional: execução bem-sucedida de provas de conceito (PoC) contratadas e atestadas por parceiros da indústria.
- Proteção patentária e liberdade de operação: estruturação robusta de propriedade intelectual e conformidade jurídica em múltiplos mercados regulados.
- Co-investimento de grupos familiares corporativos: atração de family offices regionais que combinem liquidez financeira, trânsito no setor real e redes logísticas estabelecidas.
Mitigação de entraves jurídicos e adensamento de polos produtivos
O debate focado na desregulamentação e criação de ambientes de negócios foi conduzido por Vilson Alves, gerente do SENAI CIMATEC, reunindo Gabriel Izaguirre (UK – Brazil Tech Hub), Higor Azevedo (Acelen), Mariana Brasil (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia – SECTI) e Tauan Sousa (SEBRAE-BA). O foco esteve na utilização prática dos mecanismos previstos pelo Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação.
A representante da SECTI apontou que ferramentas contratuais como a Encomenda Tecnológica (ETEC) e o bônus tecnológico fornecem segurança aos gestores públicos para custear o desenvolvimento de soluções inéditas de interesse do Estado. Contudo, alegou que a ampla adoção desses formatos ainda enfrenta barreiras interpretativas nas procuradorias jurídicas e nos órgãos de controle externo, exigindo treinamento técnico continuado de operadores do direito e gestores acadêmicos.
Na esfera industrial, Higor Azevedo contextualizou a estruturação da biorrefinaria de macaúba conduzida pela Acelen, evidenciando como empreendimentos energéticos em larga escala funcionam como indutores para fornecedores locais de base científica. Por sua vez, Gabriel Izaguirre destacou canais de internacionalização para que companhias nacionais acedam a certificações e redes de fomento no exterior, enquanto Tauan Sousa mapeou a consolidação de polos tecnológicos distribuídos além de Salvador, abrangendo Feira de Santana, a região Sudoeste e o polo agroindustrial do Oeste Baiano.
Consolidação do relatório nacional e próximos passos institucionais
Com a conclusão da plenária soteropolitana, a coordenação da Wylinka informou que iniciou a compilação dos dados coletados durante os cinco encontros regionais de 2026. As demandas estruturais mapeadas na Bahia, Minas Gerais, Pará, Rio Grande do Sul e Goiás integrarão o Relatório Nacional do Fórum Brasileiro de Deep Techs 2026.
O documento final será apresentado na capital paulista, reunindo recomendações de governança corporativa, alternativas de fomento e propostas de simplificação aduaneira e regulatória para tecnologias profundas. A iniciativa conta com patrocínio institucional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da FINEP, funcionando como subsídio para políticas públicas de apoio à reindustrialização nacional.
Análise Brasil Inovador
A descentralização das discussões sobre deep techs revela um movimento técnico necessário: a superação da dependência quase exclusiva do eixo financeiro do Sudeste para a viabilização de empreendimentos científicos. A identificação de matérias-primas regionais, como a fibra de sisal e a macaúba, comprova que as vantagens competitivas da bioeconomia brasileira dependem da sofisticação da química fina, da biologia sintética e da nanotecnologia desenvolvidas no entorno dos biomas e dos complexos fabris locais.
Todavia, o salto entre as bancadas de laboratório baianas e a competitividade global permanece estrangulado por assimetrias no mercado de capitais. Embora iniciativas estatais como o Fundo de Capital Semente do Nordeste ofereçam o suporte inaugural indispensable para as etapas de prova de conceito, a carência de operadoras privadas independentes aptas a ancorar rodadas de Série A e Série B ainda força a migração societária de empresas emergentes. A ausência de liquidez privada nas etapas de escala industrial transfere os benefícios fiscais e a propriedade intelectual para polos consolidados fora da região produtora.
Para o horizonte dos próximos ciclos econômicos, a retenção de valor tecnológico nos polos regionais demandará a utilização rotineira das Encomendas Tecnológicas por parte de estatais e autarquias, garantindo demanda âncora a tecnologias inéditas. Paralelamente, o adensamento do relacionamento com os grupos industriais locais representa a única rota economicamente sustentável para que o conhecimento acadêmico gerado nas universidades públicas do Nordeste se converta em produtividade industrial mensurável e autonomia de suprimentos estratégicos.
FONTE: BRASIL INOVADOR