Debate na USP destaca integração entre ciência, governo e inovação em São Paulo
Evento reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais para discutir caminhos para ampliar a cooperação científica global e destacou o papel da USP e de instituições de pesquisa no fortalecimento do ecossistema de inovação de São Paulo
Os impactos da metaciência sobre a democracia, a governança e a confiança, assim como os desafios e caminhos para fortalecer a cooperação internacional em ciência e inovação, estiveram no centro da programação da 8ª edição da São Paulo Innovation and Science Diplomacy School (InnSciD SP), que teve como tema Metaciência e cooperação científica global. Realizado de 10 a 14 de agosto na USP, o encontro foi sediado no Auditório do Instituto de Estudos Avançados (IEA), no campus no bairro do Butantã, e reuniu pesquisadores, estudantes de pós-graduação e profissionais interessados na interface entre ciência, inovação, políticas públicas e diplomacia científica.
Ao longo dos cinco dias da edição de 2026, a programação reuniu conferências, mesas de discussão, estudos de caso e atividades práticas sobre fundamentos da diplomacia científica, relações internacionais, diplomacia da inovação, metaciência, cooperação científica global e ecossistemas de inovação. A proposta foi aproximar diferentes setores e perspectivas, conectando universidade, governo, instituições de pesquisa e atores do ambiente de inovação. Organizada pelo Centro de Estudos das Negociações Internacionais do IEA, em parceria com o Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), a edição contou com financiamento do Programa Escola São Paulo de Ciência Avançada da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Um dos destaques do evento foi o debate sobre ecossistemas de inovação locais e regionais, realizado em 11 de agosto, que discutiu a dinâmica do ambiente de inovação paulista e o papel de diferentes instituições, incluindo a USP, em sua consolidação.
Ecossistema paulista
Uma primeira mesa sobre o ecossistema de inovação de São Paulo reuniu André Carlos Busanelli de Aquino, do Distrito de Inovação de São Paulo, Samo Tosatti, chefe da Assessoria Internacional do Governo do Estado de São Paulo, e Marco Antonio Zago, presidente da Fapesp. A discussão abordou a composição do ecossistema paulista e a articulação entre governo, instituições de pesquisa e ambientes de inovação.
Busanelli abordou o Distrito de Inovação de São Paulo como um projeto estratégico que busca transformar a capital paulista em um ecossistema de inovação aberta. Para ele, a iniciativa propõe superar o modelo tradicional de acordos bilaterais, criando uma plataforma institucional integrada que conecta universidades, institutos de pesquisa, empresas e o setor público.
“O foco geográfico concentra-se na zona oeste da cidade, aproveitando a alta densidade de talentos e laboratórios de instituições como a USP e o IPEN”, disse. Através de uma associação privada sem fins lucrativos, o projeto busca orquestrar a transferência de tecnologia e atrair investimentos internacionais enquanto preserva o patrimônio público. Além do desenvolvimento econômico, a proposta inclui melhorias em mobilidade urbana e inclusão social, servindo como um modelo piloto que deverá ser replicado em outras cidades do Estado de São Paulo.
Samo Tosatti, chefe de Assuntos Internacionais do Estado de São Paulo, destacou o papel da região como o principal polo de inovação da América Latina e que o Estado possui um PIB superior ao de diversos países vizinhos e investe em pesquisa e desenvolvimento acima da média nacional. “O PIB do Estado de São Paulo é de pouco mais de US$ 700 bilhões. É maior do que o PIB da Argentina, do Uruguai e do Paraguai somados. Nós respondemos por apenas 22% da população brasileira, mas por um terço do PIB do País”, disse.
Tosatti também abordou a infraestrutura logística, a matriz energética sustentável e a concentração de startups e centros de tecnologia que tornam São Paulo uma exceção produtiva no Brasil. Apesar da liderança setorial, ele identifica desafios macroeconômicos, como a alta carga tributária, juros elevados e a necessidade de maior abertura comercial. Por fim, ele reforçou a importância de instituições como a Fapesp e a integração entre academia e indústria para manter a competitividade global.

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O papel fundamental do Estado de São Paulo como o principal polo de ciência, tecnologia e inovação no Brasil também foi abordado na fala de Zago. Ele destacou que a região concentra a maior fatia da produção científica e de startups do País, impulsionada por um sistema robusto que integra universidades de pesquisa, institutos governamentais e o setor privado. Também destacou um diferencial importante que é o financiamento garantido pela Fapesp, que utiliza uma porcentagem fixa da receita tributária estadual para apoiar projetos de longo prazo em áreas como agricultura sustentável e biotecnologia.
A base desse sucesso, segundo ele, remonta à metade do século passado, com a criação da primeira universidade de pesquisa do País. “O Estado de São Paulo publica 40% de todos os artigos científicos do Brasil. Além disso, concentramos 55% das startups do país e respondemos por 42% dos empregos de alta intensidade tecnológica”, explica Zago. O ex-reitor da USP ainda falou sobre o sucesso de longo prazo do modelo paulista de incentivo à ciência. “Mais de 11% das receitas tributárias coletadas pelo Estado de São Paulo são transferidas para instituições de pesquisa e de ensino superior. E posso assegurar que essa não é uma política recente; ela está em vigor de forma contínua há mais de 30 ou 40 anos”, disse.
Zago afirmou que, atualmente, o ecossistema paulista expandiu-se e envolve 63 instituições de ensino superior, 28 institutos governamentais e mais de 1.500 empresas com departamentos próprios de pesquisa e desenvolvimento (P&D).
Fortalecimento dos ecossistemas
A contribuição das instituições de pesquisa e desenvolvimento tecnológico para o fortalecimento de ecossistemas de inovação em âmbito regional foi o destaque da segunda mesa de debates no evento, em que participaram Ulisses Barres de Almeida, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e diretor do Centro Latino-Americano de Física (CLAF), e Anderson Ribeiro Correia, diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Almeida destacou como a física de astropartículas na América Latina vive um momento de transição histórica, impulsionada por sua geografia montanhosa que atrai cerca de 30% dos experimentos mais importantes do mundo na área. Historicamente, esses grandes laboratórios científicos foram sediados no continente sob a liderança de instituições europeias e norte-americanas. Contudo, essa dinâmica começa a mudar com o anúncio de que o Brasil liderará a construção do maior observatório de astronomia de raios gama da América do Sul, localizado no Chile, viabilizado por um financiamento inicial de 10 milhões. Apesar deste avanço, o crescimento científico individual de cada país acabou gerando uma fragmentação regional, levando as nações latino-americanas a priorizarem parcerias bilaterais com o Hemisfério Norte em vez de cooperarem entre si.

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Para reverter esse isolamento, Almeida explicou como o Centro Latino-Americano de Física (CLAF) busca reposicionar-se não apenas como um facilitador de intercâmbios, mas como um articulador estratégico na região. O palestrante e diretor do centro enfatizou a necessidade urgente de integrar as “ilhas de excelência” científica que hoje atuam dispersas no continente, alertando sobre o futuro da instituição. “Hoje o CLAF tem que olhar para o papel de atuar como um ator regional de diplomacia científica, caso contrário, perderá completamente seu sentido e propósito”.
Como solução prática, ele propôs a criação de um grupo de coordenação permanente que reúna academia, governos e ministérios das relações exteriores. A meta, segundo ele, é estruturar políticas e canais de diálogo contínuos para que a América Latina esteja pronta para captar recursos e viabilizar grandes projetos multilaterais assim que as oportunidades surgirem, superando a histórica instabilidade política da região.
A trajetória de mais de um século do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo e sua evolução como um pilar da inovação industrial no Brasil foi abordada por Correia. Ele explicou como a organização atua em frentes diversas, desde a pesquisa e desenvolvimento em materiais e energia até a oferta de serviços tecnológicos e educação profissional para o setor corporativo.
O palestrante enfatizou a transição para um modelo de campus aberto, que abriga grandes empresas globais e estimula parcerias internacionais em áreas estratégicas como o hidrogênio verde e a descarbonização. “Em 2019, iniciamos o programa para trazer empresas para o nosso campus, atuando como parceiras tecnológicas. (…) Este é o campus aberto. Não temos muitas empresas ainda, mas as que estão aqui são muito fortes”, disse.
Além disso, Correia ressaltou a colaboração estreita com a USP e agências de fomento para impulsionar a sustentabilidade e a tecnologia offshore. “Como estamos aqui na USP, temos uma colaboração muito forte. Acabamos de iniciar um novo centro de inovação em tecnologia offshore e, com recursos da Shell, da Fapesp e contrapartidas, investimos 160 milhões para este centro. (…) A tecnologia é muito relevante porque, no Brasil, mais de 80% da gasolina que usamos vem do pré-sal”, afirmou.
Por fim, a apresentação reforçou o papel do instituto como um elo vital entre a academia e o mercado, visando à projeção da produção científica brasileira no cenário global. “Temos uma colaboração muito forte com a USP (…) e o plano é fazer a transição de energia. Temos 18 projetos junto com a Shell (…) para, em alguns anos, desenvolvermos mais competência em energia solar, eólica, biomassa, hidrogênio, combustíveis alternativos sustentáveis para aviação e, quem sabe, abrir possibilidades de cooperação internacional também, exportando combustível para a Europa, Ásia, Estados Unidos e vice-versa”.

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Fórum internacional
Criada em 2019 como uma iniciativa vinculada ao programa Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a InnSciD SP consolidou-se como um fórum internacional de formação, diálogo e articulação em diplomacia científica e da inovação. A iniciativa busca aproximar pesquisadores, estudantes, gestores públicos e profissionais de diferentes áreas para discutir como ciência, tecnologia e inovação podem contribuir para a cooperação internacional e para o enfrentamento de desafios globais.
Ao longo de suas edições, a escola também passou a estimular a formação de redes entre instituições acadêmicas, governos e organizações ligadas à pesquisa e à inovação. A proposta é promover uma visão integrada da diplomacia científica, articulando a produção de conhecimento às políticas públicas, às relações internacionais e aos ecossistemas de inovação.
A organização da InnSciD SP contou com um comitê executivo formado por pesquisadores da USP com atuação nas áreas de relações internacionais, políticas de inovação e diplomacia científica. A coordenação executiva ficou a cargo de Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira e Pedro Ivo Ferraz da Silva, com Janina Onuki, Guilherme Ary Plonski e Júlia Battistuzzi Penachioni como integrantes do comitê.
FONTE: Jornal da USP