Capgemini vai se desfazer de unidade de governo nos EUA devido a contrato com a ICE
A multinacional francesa de tecnologia Capgemini anunciou nesse domingo, 1º, que irá se desfazer de forma imediata da sua unidade de Governo nos Estados Unidos, a Capgemini Government Solutions (CGS), após uma revisão interna do contratos firmados com a Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência responsável pela política de imigração e deportação norte-americana. A decisão ocorre em meio a forte pressão política na França, protestos de trabalhadores do setor de tecnologia e crescente escrutínio internacional sobre o papel de empresas privadas em programas de monitoramento de imigrantes.
O estopim da crise foi a revelação de que a CGS havia sido selecionada como contratante principal de um novo programa do ICE voltado à detenção e rastreamento de imigrantes classificados como “não negociáveis”. O programa prevê o uso de técnicas de skip-tracing — método tradicionalmente utilizado por cobradores de dívidas para localizar pessoas difíceis de encontrar —, algo que até então não fazia parte das práticas da agência migratória. Por meio dessas ferramentas, o ICE planejava rastrear até 50 mil imigrantes por mês, utilizando “todas as ferramentas técnicas disponíveis” para identificar locais de moradia e trabalho, seguidas de confirmações presenciais e fotográficas, segundo reportagens do Washington Post.
Em dezembro, o ICE concedeu contratos a dez empresas privadas para executar esse programa, com potencial de faturamento superior a US$ 1 bilhão até o final de 2026, de acordo com o site The Intercept. No caso específico da Capgemini Government Solutions, o valor estimado do contrato poderia chegar a US$ 365 milhões ao longo de dois anos. A subsidiária atuava há mais de 15 anos junto ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS), conforme declarou o CEO global da Capgemini, Aiman Ezzat.
Em comunicado divulgado no LinkedIn, Aiman Ezzat confirmou que reguladores independentes iniciaram uma revisão do contrato na semana anterior ao anúncio da decisão. “Recentemente tomamos conhecimento, por meio de fontes públicas, do contrato da CGS concedido pela Immigration and Customs Enforcement do DHS em dezembro de 2025. A natureza e o escopo desse trabalho levantam questões quando comparados ao que normalmente fazemos como empresa de negócios e tecnologia”, afirmou o executivo.
Uma semana depois, a análise concluiu que as restrições legais impostas a entidades que atuam em atividades classificadas do governo federal americano impediram a Capgemini de exercer controle adequado sobre determinados aspectos das operações da subsidiária. Segundo a empresa, essa limitação inviabilizou garantir o alinhamento pleno das atividades da CGS com os valores, princípios e objetivos estratégicos do grupo.
Diante desse cenário, a Capgemini optou por se desfazer da unidade governamental nos Estados Unidos, marcando um reposicionamento estratégico e reforçando o debate global sobre os limites éticos da atuação de empresas de tecnologia em políticas de segurança, vigilância e imigração.
Fonte: TI Inside