Ações de extensão da UFRR recebem prêmio da Organização Pan-Americana da Saúde
Fonte: UFRR
Em um Estado com expressiva participação de partos indígenas na rede pública, como Roraima, é fundamental incorporar abordagens interculturais no cotidiano assistencial. É o que aponta a experiência “Entre Saberes Tradicionais e o Cuidado em Saúde Indígena: Vínculos na Maternidade”, ligada ao projeto de extensão da UFRR “PET Saúde – Grupo de Aprendizagem Tutorial 3 (GAT 3): Oficinas e Capacitação”.
A ação é uma das duas experiências de Roraima premiadas na Mostra de Experiências no Laboratório de Inovação em Saúde (LIS) do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) – Edição Equidade, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), instituído em parceria com o Ministério da Saúde. Roraima foi o único Estado a receber dois prêmios na mostra.
“Entre Saberes Tradicionais e o Cuidado em Saúde Indígena: Vínculos na Maternidade” foi premiada no eixo “Acolhimento e Valorização às Trabalhadoras e Trabalhadores e Futuras Trabalhadoras e Trabalhadores da Saúde no Processo de Maternagem, Acolhimento e Valorização de Mulheres”.
A experiência foi desenvolvida na Maternidade Nossa Senhora de Nazaré, em Boa Vista, sob a responsabilidade da acadêmica de Medicina Laura Hermes, da tutora e coordenadora do GAT 3 do PET-Saúde Equidade e professora do curso de Psicologia Joelma Ana Gutiérrez Espíndula e do coordenador do PET-Saúde/UFRR e professor do curso de Enfermagem Fabrício Barreto.

O PET-Saúde Equidade promove a integração ensino-serviço-comunidade e qualifica futuros profissionais para o cuidado inclusivo no Sistema Único de Saúde (SUS). Em setembro de 2025, o projeto realizou a roda de conversa “Psicologia e Saúde Indígena na Maternidade”, com a professora de Psicologia da UFRR Pamela Gil, que discutiu práticas culturais, desafios e estratégias de acolhimento intercultural no contexto roraimense, com enfoque nas etnias Yanomami, Makuxi, Wapichana, Waiwai e Waimiri Atroari.
Promovida pelo GAT 3, a atividade teve a participação de estudantes de Medicina, Psicologia, Enfermagem e Ciências Sociais, tutoras do PET-Saúde e preceptores que supervisionam os acadêmicos na maternidade, além da equipe multiprofissional da unidade.
Algumas situações discutidas na roda de conversa foram: dificuldades de fazer orientações clínicas e o acolhimento por causa de barreiras linguísticas, especialmente com falantes de Yanomami e Wapichana, conflitos entre práticas tradicionais e a rotina biomédica, diferenças nas práticas de parto, como a preferência de algumas mulheres por parir de cócoras e, em certos casos, realizar o parto sozinhas, sem avisar a equipe antes.
Também foi discutido sobre o desconforto de mulheres indígenas com profissionais homens, o que limita alguns procedimentos obstétricos, e crenças que limitam acompanhantes, como a impossibilidade de o pai estar presente por motivos espirituais ou de resguardo. Um exemplo é o resguardo paterno Makuxi, em que, após o parto, o pai adota restrições alimentares e comportamentais que, segundo sua crença, possam prejudicar a saúde do bebê.

Projeto “Cuidar de Quem Cuida” dedicado aos trabalhadores do SUS também é premiado na Mostra
Outra iniciativa roraimense premiada na Mostra de Experiências no LIS do PET-Saúde – Edição Equidade foi a experiência “Cuidar de Quem Cuida: Fortalecimento e Autonomia de Trabalhadores do SUS Através da Defesa Pessoal como Estratégia de Promoção da Saúde Mental”.
Premiada no eixo “Valorização das Trabalhadoras e Futuras Trabalhadoras no Âmbito do SUS, Saúde Mental e as Violências Relacionadas ao Trabalho na Saúde”, a ação foi desenvolvida sob a responsabilidade das acadêmicas de Enfermagem Ana Carolina Santos de Souza e Melina Liriel da Silva Melo, do professor do Instituto de Antropologia Fernando José Ciello e da coordenadora do GAT 3 do PET Saúde Indígena e professora de Enfermagem Carla Araujo Bastos Teixeira.
A ação desenvolveu a oficina “Cuidar de Si: Defesa Pessoal para Trabalhadores do SUS”, ministrada por uma atleta de judô, com suporte de acadêmicos e preceptores do PET-Saúde. A oficina foi realizada na Unidade Básica de Saúde (UBS) Enfermeiro Vanderly Nascimento de Souza, no bairro 13 de Setembro.A UBS foi escolhida pela situação de vulnerabilidade crítica relacionada à insegurança e ao sofrimento psíquico dos trabalhadores, que atuam em território com forte presença de facções criminosas, segundo diagnóstico situacional realizado na unidade. Em tatames e ambiente aberto na unidade de saúde, a oficina abordou sobre percepção de risco e segurança preventiva, além de instruções práticas de autodefesa e simulações de situações reais aplicáveis ao cotidiano da UBS.

Como resultado, a oficina fortaleceu a autoconfiança e reduziu o sentimento de insegurança no ambiente de trabalho, promoveu momentos de interação, acolhimento e fortalecimento de laços entre diferentes categorias profissionais da equipe.
Também desenvolveu competências de planejamento e atuação crítica no território para os acadêmicos, o que consolida a integração entre ensino e serviço, além de estimular a adoção de estratégias práticas de proteção e valorização da integridade física e mental no cotidiano do serviço.
Segundo a acadêmica Ana Carolina Santos de Souza, com a oficina finalizada e o PET Saúde encerrado, e após o reconhecimento nacional, a expectativa é fortalecer a disseminação da experiência, compartilhar os resultados com outros serviços e instituições e ampliar as possibilidades de aplicação da proposta em diferentes contextos.
“As atividades desenvolvidas geraram conhecimento científico a partir de demandas reais dos serviços de saúde, contribuindo para a produção de evidências e para o fortalecimento das políticas públicas”, declarou a acadêmica, ao destacar que a premiação evidencia a relevância das ações desenvolvidas no contexto amazônico voltadas aos profissionais de saúde e reforça a capacidade de produção de conhecimento e inovação em saúde realizada em Roraima, com potencial para gerar impacto significativo e contribuir para o fortalecimento do SUS em nível nacional.
Além das duas ações de extensão da UFRR premiadas, outras duas experiências de Roraima foram selecionadas para publicação em livro (e-book): a experiência “Acolhimento e Valorização no Cuidado à Maternagem: Experiência do PET Saúde/Equidade no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth (RR)” e a experiência “A Vida de Quem Cuida Importa: Roda de Conversa sobre Saúde Mental e Prevenção ao Suicídio com Profissionais da Saúde em São João da Baliza (RR)”.
Do eixo “Valorização das Trabalhadoras e Futuras trabalhadoras no Âmbito do SUS, Gênero, Identidade de Gênero, Sexualidade, Raça, Etnia, Deficiências e as Interseccionalidades no Trabalho na Saúde”, a experiência “Acolhimento e Valorização no Cuidado à Maternagem: Experiência do PET Saúde/Equidade no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth (RR)” também é uma iniciativa do PET-Saúde Equidade da UFRR.
Por sua vez, a experiência “A Vida de Quem Cuida Importa: Roda de Conversa sobre Saúde Mental e Prevenção ao Suicídio com Profissionais da Saúde em São João da Baliza (RR)” é vinculada ao eixo “Valorização das Trabalhadoras e Futuras Trabalhadoras no Âmbito do SUS, Saúde Mental e as Violências Relacionadas ao Trabalho na Saúde”.
A premiação foi entregue no dia 13 de maio, em Brasília, durante a programação do Encontro do Programa Nacional de Equidade, Gênero, Raça, Etnia e Valorização das Trabalhadoras do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao todo, a mostra teve 356 experiências inscritas, 270 selecionadas para publicação e 27 premiadas.