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Sônia Guimarães: professora do ITA e primeira doutora negra em Física do Brasil

Hoje, Sônia é doutora em Materiais Eletrônicos na Universidade de Manchester, no Reino Unido, e professora do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)

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Hoje, Sônia é doutora em Materiais Eletrônicos e professora do ITA Foto: Alessandro Courbassier/Divulgação

Aos 4 anos, a vontade de Sônia Guimarães de aprender era tanta que sua família a inscreveu em uma pequena escola próxima de casa, no bairro Vila Gustavo, Zona Norte de São Paulo. Aos seis, a curiosidade indomável venceu a capacidade de resposta e sua mãe deu duas enciclopédias a ela — mesma época em que sua avó começou a chamá-la de “xereta”.

Pouco depois, a magia do ensino já havia tomado seu coração e mente, e seus pais a presentearam com um kit de química, com tubinhos de vidro, reagentes coloridos e um livreto de instruções. Esses foram apenas os primeiros anos de uma vida inteira dedicada à ciência e ao ensino. Hoje, Sônia é doutora em Materiais Eletrônicos na Universidade de Manchester, no Reino Unido, e professora do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Estudante do ensino fundamental, a pequena Sônia se sentava no colo do pai enquanto ele, com olhos atentos e sérios, verificava seus cadernos todas as tardes. “A obrigação dele era verificar as minhas tarefas, e a minha era ser a primeira aluna da classe. Ele deixava muito claro que, como eu não trabalhava, minha profissão era ser estudante. Portanto, nota alta era obrigação, não mérito”, escreveu a hoje doutora Sônia Guimarães em seu livro.

No ensino médio, a dinâmica mudou. Com o avanço do conteúdo, o pai disse à Sônia que não verificaria mais seus cadernos, mas a exigência continuaria a mesma. “A minha infância foi bem criancice mesmo, com bolinha de gude, empinar pipa, pular carnaval. Mas, nessa época, por causa dos meus pais, eu já entendia que aprender era a coisa mais interessante que existia”, afirma a pesquisadora.

Mesmo sempre estando entre as melhores da turma, sua capacidade e inteligência pareciam pequenas perto do que as pessoas viam: sua pele preta. “Eu tive uma professora de física no ensino médio que sempre repetia que eu nunca aprenderia nada sobre ciências”, conta.

Mas isso não a abalou. Com o apoio dos pais e incentivo dos professores, Sônia prestou vestibular e marcou o interesse em Engenharia Civil e Física. “Eu passei com facilidade em Física na Universidade Federal de São Carlos, mas meu pai, machista como todo homem, especialmente nos anos 1970, disse: ‘Filha minha não vai morar sozinha em outra cidade. Daqui a pouco está de barriga e eu não quero isso’”, continua.

Mas o que ele não contava, era que a mãe apoiaria o sonho da filha. Pouco antes, o pai foi internado em um sanatório devido a tuberculose e a mãe, uma dona de casa responsável por quatro adolescentes, precisou segurar as pontas. Foi nesse momento que, por acaso, nasceu o Buffet da Clécia. “O bufê surgiu assim, de uma vontade que ela não podia exercer, mas justificada pela necessidade, permitindo que minha mãe, finalmente, pudesse mostrar a competência que estava já ali, esperando espaço”, diz.

Quando o pai voltou, completamente recuperado, encontrou uma nova realidade. “Quando meu pai disse que eu não poderia ir, minha mãe brigou e falou: ‘Ela vai amanhã fazer a matrícula e procurar onde morar, porque eu vou pagar’”, conta Sônia, com admiração.

O começo

A história entre Sônia e a Física demorou para começar. Foi apenas no cursinho para o vestibular que ela viu as primeiras fórmulas físicas, mas isso não a impediu de, entre as engenharias, escolher o curso. “No segundo ano de graduação, eu comecei a estudar física moderna e percebi que desenvolvimento tecnológico, inovação do futuro, me interessam. Foi assim que me aprofundei em semicondutores”, afirma a pesquisadora.

Concluindo a graduação em 1979, Sônia logo ingressou no mestrado em Física Aplicada pelo Instituto de Física e Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP).

Em 1984, a pesquisadora deixou o país para continuar seus estudos. Com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Sônia embarcou para a Itália para se especializar em Química e Tecnologia dos Materiais e dos Componentes, no Conselho Nacional das Pesquisas (Consiglio Nazionale delle Ricerche, em italiano).

“Quando terminei o mestrado, eu consegui uma bolsa para ir para a Itália começar meu doutorado sanduíche e meu pai disse eu não poderia ir para outro país! Tadinho. Meu pai sofreu tanto na minha mão”, conta Guimarães com humor.

Dois anos depois, a Inglaterra foi sua próxima parada, onde ela adquiriu seu doutorado em Materiais Eletrônicos na Universidade de Manchester, no Reino Unido. “Depois da Itália, eu fui para a Inglaterra terminar o curso. Aí ele já estava mais acostumado e não chorou tanto”, continua. Sônia foi a primeira mulher brasileira preta a conquistar o título em física.

Com diversos títulos e uma vasta experiência em pesquisa, a física voltou para o Brasil decidida a ampliar seu leque e começar a dar aulas. “Eu fiz concursos para a Universidade Federal de São João del-Rei, para a Universidade Federal de Minas Gerais e outras faculdades, mas a que eu passei foi o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA”. Com isso, em 1993, Sônia se tornou a primeira mulher negra professora da instituição, quando o instituto nem mesmo aceitava alunas.

Neste ano, a Forbes considerou a pesquisadora uma das dez cientistas brasileiras que Transformam a Ciência no Brasil e no Mundo. Em 2025, a revista também a colocou na lista de Mulheres Mais Poderosas do Brasil. No ano anterior, seu rosto estampou uma série de selos comemorativos dos Correios na Emissão Postal Especial Mulheres Pioneiras das Ciências Brasileiras. Em 2023, Sônia recebeu a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito pelo ITA.

Desde sempre

Segundo Sônia, não houve um momento em que ela percebeu que ser uma mulher preta tornaria as coisas mais complicadas e difíceis. Na verdade, ela sempre soube. Do colégio aos seus dias como professora, sempre foi óbvio o racismo e machismo.

“No meu doutorado, meu próprio orientador me deu a menor nota na qualificação da tese, enquanto os membros externos da banca deram a maior nota. Ele chegou a dizer para mim que eu nunca teria uma tese. Mas na minha apresentação, o professor de fora disse que nunca tinha visto um trabalho tão bem escrito de uma pessoa que não tinha inglês como primeira língua”, afirma.

No ITA, as coisas não foram diferentes. “No meu primeiro ano, 12 alunos foram ao coordenador e disseram que eu não sabia física, que eu era a pior professora do mundo e que minhas roupas eram muito chamativas. Por causa desse grupo, eu fui tirada do cargo e mandada para outra área, onde eu não poderia mais dar aula, mas continuaria pesquisando”, conta Guimarães.

Mas o que eles não esperavam é que, com a pesquisa feita no período, a física conseguiria uma patente, o que tornou seu afastamento insustentável. “Tem gente que não me olha na cara. Professores que têm salas do lado da minha e não me cumprimentam. Ano passado, depois de 33 anos, entrou um novo professor que não apenas falou comigo, como disse que é meu fã. Foi a primeira vez que eu fui bem recebida ali”, continua a pesquisadora.

A primeira, não a última

Neste ano, Sônia Guimarães lançou seu livro de memórias intitulado “A primeira, não a última”. “Não adianta você ser a primeira. Outras precisam vir depois. Nós precisamos tomar conta de todos os espaços, porque do jeito que está, não dá para continuar”, explica a escolha do nome da obra.

De acordo com a física, em todas as suas palestras, Sônia faz questão de incentivar a entrada de mulheres e pretas na ciência e na pesquisa, especialmente na física. “Eu falo, eu grito, ‘mulheres, venham! Pretinhas, venham! A ciência precisa de vocês’! Daqui a pouco eu saio dessa brincadeira e nós precisamos de vocês”, finaliza a pesquisadora.

FONTE: GOV

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