Governança deve ser o trilho da IA, e não um muro para a inovação
A corrida pela inteligência artificial generativa já deixou para trás a fase da experimentação isolada. Depois de um período marcado pela criação acelerada de pilotos e provas de conceito, as empresas agora enfrentam um desafio muito mais complexo: transformar essas iniciativas em resultados concretos de negócio sem perder o controle sobre um ambiente cada vez mais distribuído.
Segundo Lucas Tempestini, Head de Marketing da Sensedia, este é justamente o momento vivido pelo mercado. Durante evento realizado pela companhia em parceria com a Squadra e o MIT SMR para apresentar um estudo sobre adoção de IA nas empresas, o executivo destacou que muitas organizações estão presas ao que chama de “purgatório dos pilotos”: um cenário em que há dezenas de projetos de inteligência artificial funcionando de forma experimental, mas poucos conseguem alcançar produção em larga escala.
“O grande desafio deixou de ser experimentar IA. Agora é decidir quais iniciativas realmente geram valor para o negócio e como levá-las para produção com segurança e governança”, afirmou.
Esse movimento acontece em praticamente todos os setores. Equipes diferentes desenvolvem agentes específicos para diferentes áreas e necessidades, criando uma quantidade crescente de modelos, fluxos e automações. O resultado é um ambiente cada vez mais complexo de administrar.
Para Lucas, esse fenômeno, conhecido como agent sprawl, pode rapidamente se transformar em um problema operacional caso não exista uma estratégia clara de governança.
Da corrida pela nuvem ao desafio da IA agêntica
Na avaliação do executivo, a evolução da inteligência artificial segue uma trajetória semelhante à observada durante a migração para a computação em nuvem.
Em um primeiro momento, muitas empresas acreditaram que migrariam todas as aplicações para a cloud. Com o amadurecimento do mercado, perceberam que uma arquitetura híbrida fazia mais sentido, equilibrando custos, desempenho e flexibilidade. Com a IA acontece algo parecido.
“As arquiteturas do mundo agêntico também serão híbridas. As empresas vão utilizar diferentes modelos, diferentes agentes e diferentes ambientes para atender necessidades específicas. Não existe um único modelo capaz de resolver tudo”, explicou.
Essa nova realidade exige uma camada adicional de conectividade capaz de integrar APIs, modelos de linguagem, agentes inteligentes e diferentes protocolos de comunicação, mantendo controle sobre toda a operação.
Governança deixa de ser burocracia para se tornar aceleradora
Embora a palavra governança ainda seja frequentemente associada à burocracia, Lucas acredita que essa visão precisa mudar rapidamente.
Segundo ele, a governança não pode funcionar como um obstáculo à inovação, mas como a infraestrutura que permite acelerar projetos de inteligência artificial sem abrir mão da segurança.
“A governança não deve ser um muro. Ela precisa funcionar como um trilho para que a empresa consiga inovar rapidamente com monitoramento, controle de acesso, autorização e rastreabilidade.”
Na prática, isso significa criar mecanismos capazes de acompanhar todo o ciclo de vida dos agentes de IA, desde sua criação até sua interação com aplicações internas, parceiros e ecossistemas externos.
Para a Sensedia, esse novo cenário demanda uma evolução natural das plataformas de integração. Além da gestão de APIs, as empresas precisarão administrar também gateways de IA, Model Context Protocols (MCPs) e novas camadas responsáveis por conectar agentes inteligentes aos sistemas corporativos.
Agentes passam a atuar como novos stakeholders
Outro ponto destacado pelo executivo é que os agentes inteligentes deixam de ser apenas ferramentas de automação para assumir um papel muito mais estratégico dentro das organizações.
Ao executar tarefas, tomar decisões e interagir com outros sistemas, esses agentes passam a fazer parte da operação empresarial e precisam seguir as mesmas regras de acesso e segurança aplicadas aos colaboradores.
“Os agentes passam a ser mais um stakeholder dentro da companhia. Eles executam ações, tomam decisões e precisam respeitar as mesmas políticas de governança da informação.”
Essa preocupação tende a ganhar ainda mais importância com a evolução dos protocolos de comunicação entre os agentes. Se hoje o MCP facilita a interação entre aplicações e modelos de IA, novas tecnologias, como os protocolos A2A (Agent-to-Agent), permitirão que agentes conversem diretamente entre si, ampliando ainda mais a necessidade de controle e orquestração.
O sucesso da IA dependerá menos da tecnologia e mais das escolhas
Na visão da Sensedia, outro desafio pouco discutido envolve a preparação dos dados corporativos.
Grande parte das arquiteturas existentes foi desenhada para aplicações tradicionais e para usuários humanos. Agora, as empresas precisarão revisar seus ambientes para garantir que essas informações possam ser consumidas corretamente por agentes inteligentes.
Isso inclui definir quais agentes terão acesso a determinados conjuntos de dados, quais decisões poderão tomar de forma autônoma e quais continuarão dependendo da supervisão humana.
Apesar do avanço acelerado da inteligência artificial, Lucas acredita que o principal diferencial competitivo continuará sendo a capacidade das empresas de escolher onde aplicar a tecnologia. Nem toda atividade deve ser automatizada, e nem todo processo precisa ser transformado em um agente inteligente.
Para ele, a adoção bem-sucedida da IA passa por uma mudança na forma de trabalhar, em que cada profissional identifica quais atividades realmente podem ser delegadas aos agentes e onde a intervenção humana continua sendo indispensável.
“Nem tudo que pode ser automatizado deve ser agentizado. O desafio agora é entender onde os agentes realmente agregam valor e como eles podem apoiar as pessoas na execução do trabalho.”
Na avaliação do executivo, as empresas que conseguirem combinar velocidade de inovação com governança consistente serão justamente aquelas capazes de superar a fase dos pilotos e transformar a inteligência artificial em vantagem competitiva sustentável.
Fonte: TI Inside