Concentração geográfica de cabos submarinos cria risco sistêmico, diz comitê
A concentração geográfica de cabos submarinos de telecomunicações cria uma vulnerabilidade sistêmica para a infraestrutura global de conectividade, sobretudo diante de fatores como o impacto de mudanças climáticas e conflitos geopolíticos ao redor do mundo.
Esta foi uma das conclusões de relatório do Comitê Consultivo Internacional para Resiliência de Cabos Submarinos (IAB, na sigla em inglês). O foro foi criado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), em parceria com o Comitê Internacional de Proteção de Cabos (ICPC), para estreitar a colaboração público e privada no tema.
“A elevada concentração geográfica de cabos cria um risco significativo decorrente, entre outros fatores, do arrasto de âncoras, da atividade sísmica e de conflitos geopolíticos. Esses eventos podem provocar interrupções na conectividade global que nenhum operador, individualmente, é capaz de mitigar apenas por meio de investimentos privados”, diz o relatório.
O documento, disponibilizado nesta sexta-feira, 10, também destaca que os cabos submarinos são considerados a “espinha dorsal” da economia digital global, dado que transportam mais de 99% do tráfego intercontinental de dados.
Vulnerabilidades
A concentração geográfica da infraestrutura, em especial, cria vulnerabilidades sistêmicas, diz o documento. “Uma parcela substancial do tráfego global passa por um número limitado de gargalos marítimos e de importantes corredores de cabos submarinos. Interrupções nessas áreas podem afetar simultaneamente a conectividade em diversas regiões”.
A situação é considerada ainda mais crítica em pequenos estados insulares, em países menos desenvolvidos e outras regiões com infraestrutura insuficiente – locais que continuam altamente dependentes de um número reduzido de sistemas de cabos. “Isso os torna especialmente vulneráveis a interrupções na conectividade”, alerta o IAB.
Outro fator que exige atenção são mudanças nos padrões climáticos e as pressões ambientais, que estão se consolidando como importantes fatores de risco. “[Eles] afetam a infraestrutura costeira de aterragem dos cabos, a estabilidade do leito marinho e o planejamento de longo prazo das redes”.
Prazos de reparo têm aumentado
Outra constatação do relatório foi que prazos para restauração e reparo de cabos têm aumentado em algumas regiões, “frequentemente devido à complexidade dos processos de licenciamento, à fragmentação dos marcos regulatórios, à disponibilidade limitada de navios de reparo e a restrições operacionais”.
O temor do IAB é que tais atrasos possam prolongar significativamente a duração das interrupções dos serviços e ampliar o impacto econômico das falhas nos cabos. O trabalho do comitê internacional contou com contribuições brasileiras, incluindo por meio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e da Blue Marine Telecom.
Recomendações
A partir dos grupos de trabalho que discutiram os desafios para resiliência dos cabos submarinos, o IAB também propôs recomendações. Veja abaixo:
- Incentivar a diversidade geográfica e a redundância dos cabos, apoiando investimentos por meio de parcerias, incluindo parcerias público-privadas, para promover rotas diversificadas, pontos de aterragem redundantes e infraestrutura resiliente, especialmente em Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, Países Menos Desenvolvidos, Países em Desenvolvimento sem Litoral e regiões com infraestrutura insuficiente.
- Promover a adoção das melhores práticas da indústria para avaliar, mitigar e responder aos riscos que afetam a infraestrutura de cabos submarinos.
- Incentivar o fortalecimento da proteção dos cabos por meio de melhor planejamento e maior coordenação entre os setores marítimos relevantes.
- Fortalecer a capacitação no setor de cabos submarinos e apoiar a inovação, por meio de treinamento e do uso de tecnologias que aprimorem o monitoramento, o planejamento de rotas, a redundância da infraestrutura e a resiliência às mudanças climáticas.
- Simplificar os processos de licenciamento, manutenção e reparo de cabos submarinos, por meio de marcos regulatórios claros, transparentes e previsíveis, bem como designar um ponto focal governamental único para facilitar a implantação e o reparo dos cabos.
- Aprimorar o arcabouço jurídico e os procedimentos regulatórios, reduzindo barreiras legais e regulatórias, inclusive em áreas como cabotagem, procedimentos aduaneiros e planejamento e gestão do espaço marinho.
Em linhas gerais, as recomendações guardam relação com pontos da discussão que é travada no Brasil em torno do tema, sob liderança do Ministério das Comunicações (MCom).
Fonte: Teletime