MENU

HOME

Consecti

Consecti Consecti

Projeto Redata pode impulsionar soberania digital, sustentabilidade e novos investimentos

O Brasil vive um momento decisivo para reduzir sua dependência de serviços internacionais de processamento de dados e ampliar sua infraestrutura digital. Para Marcos Siqueira, Chief Revenue Officer (CRO) e Head de Estratégia da Ascenty, a aprovação do projeto Redata representa uma oportunidade estratégica para atrair investimentos, fortalecer a soberania de dados e aproveitar a vantagem competitiva do país em energia renovável.

MarcosSiqueira_CRO-1536×864

Em entrevista, o executivo detalhou os desafios e benefícios do projeto, o cenário atual da infraestrutura nacional de data centers e os impactos econômicos, tecnológicos e ambientais da iniciativa.

Segundo Siqueira, apesar da forte presença da Ascenty e de outros operadores no país, a capacidade instalada de data centers ainda é insuficiente para atender a demanda crescente por serviços digitais e computação em nuvem. Dados recentes do Banco Central do Brasil apontam um déficit significativo nos serviços de processamento de dados, refletindo a dependência do Brasil de infraestrutura tecnológica externa.

De acordo com o executivo, o principal fator que explica essa dependência é a diferença entre a capacidade instalada e o consumo real de serviços digitais.

“O Brasil possui grandes data centers, inclusive com operações robustas, mas a soma da capacidade instalada ainda é muito inferior ao volume de serviços de cloud utilizados pelas empresas. Muitas tecnologias ainda estão disponíveis apenas no exterior ou apresentam custos mais competitivos fora do país”, explica.

Hoje, cerca de 60% dos serviços de computação em nuvem utilizados por empresas brasileiras estão hospedados nos Estados Unidos, o que impacta custos, latência, competitividade e autonomia tecnológica nacional.

Redata como instrumento de competitividade global

O projeto Redata surge como uma proposta para tornar o Brasil mais competitivo na atração de investimentos em infraestrutura digital, especialmente com incentivos fiscais para equipamentos de tecnologia e exigências ambientais.

Siqueira destaca que o principal obstáculo atual é a elevada carga tributária sobre a importação de equipamentos tecnológicos, especialmente chips voltados à inteligência artificial.

“Atualmente, a tributação pode chegar entre 35% e 38%. Isso significa que um terço do investimento de uma empresa pode ser consumido apenas em impostos, o que naturalmente desestimula a instalação de data centers no país”, afirma.

O projeto prevê reduzir essa carga para cerca de 2%, com contrapartida em investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Segundo o executivo, essa mudança colocaria o país em condições de igualdade com mercados internacionais.

Ele ilustra o impacto com um exemplo prático: a construção de um data center de 100 megawatts voltado para inteligência artificial pode exigir investimento de aproximadamente US$ 1 bilhão em infraestrutura, enquanto os clientes que utilizam o espaço investem entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões em equipamentos. “Sem competitividade tributária, o investidor simplesmente escolhe outro país”, resume.

Energia renovável como vantagem estratégica

Além do aspecto tributário, o Brasil apresenta um diferencial relevante no cenário global: sua matriz energética majoritariamente renovável.

Segundo Siqueira, cerca de 90% da energia elétrica brasileira provém de fontes renováveis, como hidrelétrica, eólica e solar — um índice significativamente superior ao de diversos países que lideram a construção de novos data centers.

“A demanda global por data centers está crescendo rapidamente devido à inteligência artificial. Porém, muitos países enfrentam escassez de energia ou dependem de fontes não limpas. O Brasil está na contramão, com energia abundante e sustentável”, afirma.

Outro ponto destacado é que o país produz mais energia do que consome, gerando capacidade ociosa no sistema elétrico nacional. O crescimento do setor de data centers poderia absorver parte dessa produção excedente, contribuindo para o equilíbrio do sistema.

O Brasil também possui um sistema interligado nacional que permite distribuir energia entre diferentes regiões, uma característica rara em países de dimensão continental.

Sustentabilidade e uso eficiente de recursos

O projeto Redata estabelece ainda critérios ambientais rigorosos, incluindo o uso de energia renovável e restrições ao consumo de água, exigências que, segundo Siqueira, já fazem parte da estratégia da Ascenty.

A empresa opera com energia 100% renovável certificada e adota sistemas de refrigeração com circuito fechado de água, que eliminam desperdícios.

“O uso de água é um tema sensível globalmente. No Brasil, devido ao custo competitivo da energia e ao modelo de operação, os data centers praticamente não consomem água adicional após a instalação inicial”, explica.

Ele cita como exemplo um data center inaugurado pela empresa em 2012, que opera até hoje com o mesmo volume inicial de água no sistema de resfriamento.

Apesar do alto consumo energético da infraestrutura digital, o executivo afirma que o setor de data centers representa atualmente cerca de 1,5% do consumo total de energia do país, percentual considerado baixo diante do potencial de expansão.

Impacto econômico e geração de empregos

Na avaliação do executivo, o Redata pode gerar impactos significativos na economia brasileira, estimulando a criação de um amplo ecossistema tecnológico.

Entre os benefícios esperados estão:

geração de empregos na construção e operação de data centers;

formação de mão de obra qualificada em tecnologia;

expansão da infraestrutura de telecomunicações e fibra óptica;

chegada de novos cabos submarinos;

fortalecimento do mercado de conectividade

atração de empresas globais de tecnologia.

“O mercado de data centers pode triplicar nos próximos anos. Isso representa mais empregos, mais investimentos e desenvolvimento de competências tecnológicas no país”, afirma.

Soberania de dados e inteligência artificial

Outro ponto considerado estratégico é o impacto do projeto na soberania digital brasileira.

Segundo Siqueira, a expansão da infraestrutura local permitirá que soluções de inteligência artificial e serviços digitais sejam hospedados dentro do país, reduzindo a dependência externa. “Se o Brasil não atrair infraestrutura de inteligência artificial, continuará processando e armazenando dados fora do país. Isso afeta diretamente a soberania tecnológica”, explica.

A presença local de data centers também tende a beneficiar diversos setores econômicos, permitindo acesso mais rápido e seguro a tecnologias avançadas.

Prazo de implementação e planos de expansão

Caso o projeto seja aprovado definitivamente, a expectativa é de rápida expansão da infraestrutura.

Segundo o executivo, grandes data centers voltados à inteligência artificial podem levar cerca de 18 meses para entrar em operação, principalmente devido ao prazo de importação de equipamentos e testes de desempenho. Estruturas menores podem ser concluídas entre oito e doze meses.

A Ascenty mantém atualmente 25 data centers em operação, sendo 20 no Brasil, além de 13 unidades em construção ou planejamento. A empresa também projeta investimentos de aproximadamente US$ 1,5 bilhão nos próximos 12 meses para expansão de suas operações na América Latina.

A decisão final sobre novos projetos dependerá diretamente do avanço do Redata, que tem sido acompanhado de perto por investidores internacionais.

Perspectiva para o futuro digital do país

Para Siqueira, o projeto representa uma oportunidade histórica para posicionar o Brasil como um hub global de infraestrutura digital sustentável.

“O Redata pode destravar volumes expressivos de investimento, fortalecer a economia digital e garantir que o país participe ativamente da nova era da inteligência artificial”, conclui.

Se implementado, o programa poderá não apenas ampliar a capacidade tecnológica nacional, mas também consolidar o Brasil como referência mundial em data centers sustentáveis e infraestrutura digital baseada em energia renovável.

Fonte: TI Inside

Mais notícias